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Brasil - Águas de Oxalá e da humanidade



Marcelo Barros   mosteirodegoias@cultura.com.br



Monge beneditino



Para a maioria do povo brasileiro, as festas da tradição cristã como  Natal e Páscoa são importantes datas do calendário e poucos se dão conta de que  os judeus celebram a festa do Ano Novo (Hosh hash ana) neste final de semana de  setembro e outras tradições têm seu calendário próprio. Se queremos contribuir  para a paz e o diálogo entre as culturas, precisamos, sem, de forma alguma,  descurar da nossa tradição própria, valorizar a dos outros e assim descobrir  que, como diz o livro bíblico da Sabedoria: "O Espírito do Senhor preenche todo  o universo e abraça todas as culturas e todas as palavras humanas" (Sb 1, 7).

Desde a madrugada desta 6ª feira, as comunidades afro-brasileiras de tradição  Ioruba acordam de madrugada para começar a festa das Águas de Oxalá. Se alguém  quiser fazer uma comparação indevida e inadequada com a tradição cristã - não se  devem fazer comparações assim - poderia associar a festa das Águas de Oxalá com  a Vigília Pascal, abrindo verdadeiramente a primavera, nesta parte do mundo em  que o que caracteriza esta estação é a vinda das chuvas benfazejas. A festa das  Águas de Oxalá revive um belo mito africano. Oxalá sente saudade do seu filho  Xangô, rei de Oiô e vai visitá-lo. Para obedecer à previsão do destino  (Orumilá), vai de branco e em silêncio absoluto. No meio do caminho, Exu lhe  pede que o ajude a levantar do chão um pesado saco de carvão e depois um barril  de azeite de dendê. Oxalá o faz. O saco estava furado e o barril também se  derramou sobre Oxalá que suja toda sua roupa branca.  Chegando ao reino do seu filho, Oxalá, todo sujo, é confundido com um bandido e  é jogado na prisão por sete anos. Neste tempo, o reino de Xangô enfrenta muitos  problemas e um babalaô lhe diz que o reino passa por tantas adversidades porque  o rei compactua com injustiças. Xangô vai então às prisões para averiguar se há  injustiças e descobre entre os presos o próprio pai. Triste, coloca o velho pai  em suas próprias costas e o conduz ao palácio onde ele mesmo se encarrega de  banhá-lo e vestí-lo com as roupas mais brancas que existem, realizando a seguir  uma grande festa em sua homenagem. A festa das Águas de Oxalá, com uma procissão  representando a viagem de Oxalá, rememora este episódio.

Como todo mito, este também é simbólico e aberto. Não é respeitoso reduzir um  fato acreditado em uma religião a pura lenda. Todo mito é mais do que lenda.  Independentemente da sua veracidade histórica, esta visita de Oxalá a Xangô  significa que a justiça divina (Xangô) liberta a bondade providencial do Criador  (Oxalá) que vem sobre o mundo como águas benfazejas da primavera. A volta das  chuvas da primavera representa esta visita nova e renovadora do amor à justiça.  De um modo ou de outro, todas as religiões contam histórias para mostrar o que  diz o salmo 85: "a justiça e a paz, a verdade e o amor têm de se encontrar e se  abraçar".  Mais do que nunca a humanidade precisa de uma grande festa das águas. Todos os  anos, especialistas de 140 países se reúnem na Suécia para a Semana Mundial da  Água. A cada ano, estes estudiosos constatam ser mais grave a carência de água  no planeta Terra. Neste ano, este encontro ocorreu de 20 a 26 de agosto e  reiterou que um terço da população mundial já sofre com a escassez de água  potável. Isso é ainda mais grave porque este quadro era previsto somente para  2025 e já está acontecendo em 2006. De acordo com a OMS (Organização Mundial da  Saúde), a cada ano, cerca de 2, 2 milhões de pessoas, muitas delas crianças,  morrem em razão da falta d´água e de suas conseqüências.  Esta crise de água, explicável pela má distribuição dos rios e lagos na  superfície terrestre, é agravada pelo aquecimento global e pela devastação de  áreas úmidas, mas principalmente pelo desperdício e pela má gestão dos recursos  hídricos, termo impróprio, já que água não é mercadoria para ser recurso. Água é  um bem da natureza que está no planeta há bilhões de anos. É o ambiente onde  surgiu a vida e componente de cada ser vivo. Por isso, o supremo valor da água é  o biológico. Recurso hídrico é a parcela da água usada pelos seres humanos para  alguma atividade, principalmente econômica. Portanto, água é um conceito muito  mais amplo que recurso hídrico, embora sejam indissociáveis. 

A questão é que o uso da água hoje é muito mais intenso que em algumas décadas  atrás. Hoje, a média mundial é que da água doce utilizada, 70% destinam-se para  agricultura, 20% para indústria e 10% para o consumo humano. Esse uso intenso da  água, principalmente na agricultura e na indústria, ocorre num ritmo mais  acelerado que a reposição feita pelo ciclo natural das águas. Dessa forma,  muitos mananciais estão sendo eliminados pelo sobre uso que deles se faz. Pior,  ao devolver a água para seu ciclo natural, ela vem contaminada pelos agrotóxicos  da agricultura e pela química da indústria. A falta de saneamento ambiental,  sobretudo em países pobres, colabora para a contaminação dos mananciais.

A festa das Águas de Oxalá é realizada em bairros de periferia, nos quais nem  sempre o acesso à água é fácil. É uma profecia espiritual que indica ao mundo  que a solução para a crise da água não pode ser a mercantilização nem a  privatização. Que toda a humanidade se coloque como as filhas e filhos de santo  na procissão de Oxalá, carregando cada pessoa o seu recipiente de água para  colocar em comum com todos. Água é direito humano universal e só quando é posta  em comum pode ser fonte de vida e de bênçãos para todo ser vivo.





Outubro de 2006




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